O relógio já marcava 17:30 daquela estranha tarde de fevereiro. A semana já se mostrava como um prelúdio de um final de semana ruim. Ela estava atrasada, como sempre. Eram eternos aqueles dez minutos. Mania irritante de sempre se atrasar por não mais que tais minutos. Nunca havia me importado com eles, mas naquela tarde, estranha, me irritavam profundamente.
Chovia. Não muito, mas o suficiente para me fazer lembrar do nosso primeiro encontro. Ela estava nervosamente linda e eu, me sentia o mais sortudo dos homens. Ela é linda, olhos, cabelos, dentes, lábios colo, corpo... ninfa, perfeita. Além disso era inteligente na medida certa. Sabia dosar de uma forma embriagante sua porção menina e sua porção mulher, o que a tornava irresistível.
A chuva continuava, quando a vi descer do ônibus. Sempre com seu guarda-chuva e pontualmente atrasada por não mais que seus dez minutos. Mais uma vez voltei ao nosso primeiro encontro, quando a levei até em casa e de quando a abracei e a beijei pela primeira vez. Como era encantadora aquela criaturinha.
Ela chegou. Sóbria, o que não era seu costume, pois mantinha sempre um sorriso franco na face. Estava vestindo preto, me dando exatamente o tom de nossa conversa.
A essa altura o coração já estava nas mãos, de bandeja para ela e ela não sorrira nenhuma vez. Não pediu nada, insisti, mas negou. Me sentia gelado. E eu sou um homem experiente, mas não sabia o que estava acontecendo comigo, ali, diante daquela menina. Sim, era uma menina que me fascinava, mas também era mulher. A mulher que me enfeitiçava, eu tonto pensava em poder ter as duas. Impossível, pois ela tem segredos que ninguém ousa descobrir. E me sentia tolo, então. Um tolo, nada mais.
Ela, a chuva, o preto... até que começou a falar. Falava de confusões, indecisões, sofrimentos, mágoas, tempo, amores, paixões. Coisas em que não se manda ou comanda, coisas do coração.
Abaixou a cabeça, desviando o olhar, seu olhar era a porta de sua alma e o mapa para descobrir os seus segredos. Perguntei-lhe se era paixão o que ela acabara de me contar e ela disse que embora se sentisse confusa, tinha certeza de que era e dessas completamente arrebatadoras.
Nesse momento, morri. O gelo que antes habitava apenas meu estomâgo e mãos, tomara conta de todo o meu corpo. Não conseguia entender como um rosto tão meigo, poderia ser tão cruel, como um olhar tão doce, poderia ser tão amargo, como uma boca tão linda, poderia ser tão áspera e nem como aquela voz tão sublime conseguira ser tão devastadora.
Ela pediu que lhe pedoasse, mas que não conseguira mandar em seu coração, me desejara boa sorte, felicidades e partira. Notei lágrimas em seus olhos e a perdoei. Realmente não se pode comandar o coração.
Era fevereiro, numa chuvosa tarde, próximo ao carnaval, mas fatidicamente, minha quarta-feira de cinzas havia antecipado-se. Não havia folia! Ela se fora.
Ps.: Esse conto é ficção, baseado em coisas da vida. O namoro vai muito bem, obrigada!
Por Lelinha às 2:08 PM |